Ohigan

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Higanbana (ヒガンバナ), uma flor cujo florescimento marca a chegada do outono no Japão.

Após as festas de final e início de ano, ingressamos com o espírito renovado para mais uma grande jornada, que se repete no ano que começa. Mais um pouco, estaremos no outono. Mas, enquanto o outono não vem, enfrentamos o calor imenso do verão. A impressão que temos sempre é de que o verão parece um pouco mais tórrido do que o ano passado. Na verdade, nada mudou tanto assim. Para que exista a vida, é necessário o verão, juntamente com as chuvas torrenciais para que a natureza se renove. Como somos parte da natureza, também acabamos nos transformando. Ainda que não se perceba, a mudança vem ocorrendo em nosso corpo e mente a cada nova respiração.

Na natureza duas estações apontam para lados opostos, de forma radical. São justamente o verão e o inverno. Mas para todo o verão existe um outono, agradável para o corpo, após o incômodo da temperatura alta. E nem por isso o inverno, seu inverso, serve para animar a todos. Temos que pensar que com a passagem do inverno vem a agradável estação das flores, a primavera. Procurar entender a transformação do mundo e a nossa transformação, como parte dele faz parte das lições divulgadas pelo mestre Sidharta Gautama, o Buda Shakiyamuni. Essa transformação se chama Dharma – a Lei Cósmica. Tudo aquilo que é, sem se deter, é conhecido por Dharma.

Aceitando o calor do verão, não apenas entendemos o Dharma como damos um sentido de gratidão pela vida. Não deixamos que o cansaço nos vença, durante o trabalho. Nem que o desânimo nos perturbe. Somente vivemos com o coração alegre e a mente alerta. Quanto ao calor, um pouco mais de paciência. Uma vez que ele se dissipa, vem o frescor do outono. Assim, em sinal de agradecimento pela vida, pelos momentos de dificuldades vencidos e pela alegria experimentada, realizamos a Cerimônia de Ohigan.

Desta vez, é o Ohigan de outono. Em setembro, será o Ohigan de primavera.

Muito árduo teria sido o último inverno e, por isso, quando chega a primavera recebemos esta transformação de mundo e de nossas vidas. Principalmente nos países de clima temperado, da região norte do globo, a mudança que ocorre na temperatura, que se torna amena, é sinal de esperança e de retomada das energias para a continuação da vida. Justamente no inverno, o frio avassalador torna as pessoas mais suscetíveis às intempéries, época em que as árvores perdem suas folhas e a agricultura cessa a produção. Quando o gelo das montanhas começa a derreter, enchendo as margens dos rios, a vida de todos os aldeões parece ganhar um novo sentido. Essa mudança que permeia toda a natureza é o que se chama no budismo de “impermanência”, momento mais drástico em que se percebe a transformação ocorrendo através dos sentidos do nosso corpo. O frio vai se dissipando para receber o calor e, assim, a natureza recompõe-se do período de degeneração. Ensinam os textos budistas que devemos estar atentos para viver o instante, mas percebendo também a transformação. Por isso, os budistas de todas as partes aproveitam para incrementar as suas práticas. Dizem os antigos que o mundo em que vivemos, conhecido também por “shigan”, é representado pelos elementos água e fogo. Como a água, as nossas paixões são profundas e largas. Como o fogo, incendiamos os nossos corações e mentes e tornamo-nos irados. Assim, procuramos durante esse período atravessar para o outro lado, o do “ohigan”, para a tranquilidade e sabedoria.

Podemos dizer que o Ohigan significa em nossas vidas um ato de comemoração por termos atingido o ponto que chegamos. De outra forma, segundo o budismo, o Ohigan é quando, por um momento, passamos do mundo das paixões e sofrimento para o mundo da Iluminação. Assim refletimos a respeito de nossa conduta, enquanto seres voltados para a liberdade e a sabedoria. Durante o período do Ohigan, devemos avaliar essa conduta, tentando colocar em prática os Seis Paramitas – Roku-do.

O primeiro dos paramitas é o Fuse (Dana). Trata-se de desenvolver a nossa generosidade, através de atos caridosos com os outros. Nesse caso, a prática do Bodhisattva diz respeito a fazer sem esperar recompensa. Não apenas podemos oferecer bens materiais, para o conforto do corpo, alimentos ou valores em moeda, como também o nosso tempo, por meio de trabalhos sociais. Este é o início de toda a prática do Grande Caminho, com despojamento e sinceridade.

O segundo dos paramitas é o Jikai (Sila). Devemos respeitar alguns princípios básicos para uma conduta regulada na sociedade. Os praticantes do Grande Caminho, sejam ordenados ou não, devem levar em consideração determinados comportamentos como o de “não tirar a vida” de forma premeditada, “não apoderar-se de algo que não lhe pertença”, “não mentir”, “não se envolver em conduta sexual imprópria” ou “não alimentar vícios prejudiciais para o corpo e a mente”, ou seja, aquilo que altera o equilíbrio psicossomático do praticante. Quer dizer, devemos estar vigilantes a fim de não cometer erros que comprometam o nosso equilíbrio.

O terceiro dos paramitas é o Ninniku (Kshanti). Sem a paciência não conseguimos obter sucesso. Agindo com o coração tranqüilo e a mente alerta, enfrentamos todas as dificuldades e vamos derrubando cada uma delas. Para qualquer forma de treinamento, a paciência é condição para se lograr o sucesso, ainda mais se tratando do Grande Caminho. Podemos entender a paciência também como um sinal de humildade.

O quarto dos paramitas é o Shojin (Virya). Trata-se aqui do esforço. O seu contrário, a preguiça, é o mal a ser evitado. Durante os treinamentos nos mosteiros, a austeridade é levada em consideração: nenhum tempo pode ser desperdiçado com futilidades. Há instantes para se cantar os sutras, para meditar e outros para o trabalho. Quem sente preguiça, encontra tempo para pensar naquilo que é dispensável. Nesse momento, a mente enche-se de vaidade e outros sentimentos banais, sem nenhuma contribuição favorável.

O quinto dos paramitas é o Zenjo (Dhyana). O corpo e a mente estão em harmonia com todo o universo. É o próprio Zen. Sentado em meditação, as pernas cruzadas, as palmas na posição de mudra cósmico, a mente está tranqüila, totalmente liberta dos apegos. Esse espírito, de constante vigilância e harmonia, deve reger o cotidiano das pessoas. Este é também o estado de Iluminação do Buda.

O sexto dos paramitas é o Chie (Prajna). Ele é traduzido como sabedoria. Libertos das ilusões deste mundo, damos passagem para o aparecimento da sabedoria.

Todos estes Seis Paramitas devem ser praticados, sem prioridade por qualquer um deles, de forma equilibrada e constante. Neste período de Ohigan, da passagem do verão para o outono, também permitimo-nos atravessar para o outro lado: o lado da Iluminação.