As Quatro Nobres Verdades

1. O sofrimento

O sofrimento é um fato da vida. Essa é a primeira verdade que o Budha nos ensinou. O sofrimento não é acidente nem castigo. Perguntar por que sofremos é igual a perguntar por que respiramos. Há uma história que fala de uma mulher que foi ao Budha, algum tempo depois de seu grande despertar, com seu bebê morto em seus braços. O bebê havia sido mordido por uma cobra enquanto brincava. Ela foi ao Budha na esperança de encontrar um pouco de consolo e alívio para sua dor.
O Budha disse que poderia ajudá-la, mas primeiro ela teria que lhe trazer uma semente de mostarda de uma casa que nunca tivesse conhecido o sofrimento. Ela foi de casa em casa, buscando tal semente, mas, apesar de lhe oferecerem muitas, ela não conseguiu encontrar uma casa que não conhecera o sofrimento. Então, ela voltou ao Budha, que disse: “Minha irmã, tu encontraste, procurando pelo que ninguém encontra, este bálsamo amargo, que eu tinha a te oferecer. Aquele que tu amas dormia morto em teu colo, ontem; hoje, tu sabes que o mundo inteiro chora com a tua dor.”

2. Liberação do sofrimento

Pode-se perguntar: “o que adianta saber que a base da vida é o sofrimento, que todos, sem exceção, terão que conhecê-lo? Não seria melhor tentar esquecer isso e ver o lado bom das coisas?” Sim, seria, se pudéssemos. Porém, a honestidade e a experiência dizem-nos que não podemos. Não é somente no Budismo que se encontra a necessidade de se abrir para a verdade do sofrimento. Há um hino antigo, atribuído a Jesus, que diz: “Se soubesses como sofrer, terias o poder de não sofrer.” Se negamos o sofrimento e insistimos que ele é um acidente ou uma intrusão, algo que não deveria existir, simplesmente contornamos o problema. Se o sofrimento se manifesta, real e verdadeiro, não há negação que o faça desaparecer. Mas, ao abrirmo-nos ao sofrimento, então existirá pelo menos a possibilidade de que possamos vir a compreender como sofrer e com base nesse conhecimento transcender o sofrimento. É à luz dessa transcendência que o Budha fez seu primeiro sermão. Nesse sermão ele disse que “tudo é sofrimento”. Essa é a Primeira Nobre Verdade, um axioma da vida. Mas o Buddha não falou por pessimismo. Ele não disse “o sofrimento existe e não há nada que possamos fazer a respeito a não ser nos resignarmos.” Pelo contrário, ele disse que teríamos que encarar a verdade, já que somente a verdade pode nos libertar. Essa é a segunda nobre verdade. O sofrimento vem da ânsia, a ânsia de ser um indivíduo, até mesmo um indivíduo imortal. O sofrimento não tem sua origem fora de nós. Que sua causa não é algo que nos foi infligido, que somos, no final das contas, responsáveis por ele, esse é o grande ensinamento do Budha. “Por si mesmo” ele disse, “o mal é cometido; por si mesmo se sofre; por si mesmo o mal é desfeito; ninguém pode purificar o outro.” A ânsia de sermos separados e distintos afeta toda a nossa vida. Afeta a forma pela qual vemos o mundo, o que tentamos fazer e o que dizemos. Afeta até a forma de ganharmos nossa vida, e nossa ética e conduta são também afetadas e distorcidas por ela. Essa ânsia leva-nos a viver adormecidos num mundo de sonhos, no qual nossas energias são dispersadas e nossa atenção dissipada.

3. Existe realmente um meio de transcender o sofrimento

Potencialmente, todos nós temos o poder de não sofrer. Porém, para realizar esse potencial devemos assumir total responsabilidade por nosso sofrimento.

4. O meio de transcender o sofrimento

O Caminho Óctuplo, baseado na reta visão, reto esforço, reta palavra, retos meios de existência, reta ação, reto pensamento, reta atenção e reta concentração. A palavra “reto” (ou “correto”, ou “justo”) não significa reto em relação a um modelo perfeito ou a um conjunto de regras. Ao contrário, significa a ausência de distorção criada pela ânsia de ser separado. Reta atenção e reta concentração, por exemplo, proporcionam uma mente calma e clara, que é o alicerce da vida ética e espiritual. A verdade do sofrimento, resultante da nossa ânsia, e a possibilidade de transcender o sofrimento, abandonando aquilo que corrompe a nossa relação com os outros e com o mundo, constituem a base e a motivação para o esforço espiritual. De uma maneira ou outra, esta verdade está subjacente ao Budismo, ao Cristianismo e a outras atividades espirituais.

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